Estamos preparados para a revolução do hidrogênio? 8 de janeiro de 2009A apregoada crise do petróleo deixa de ser uma discussão futurista para se tornar uma realidade muito próxima. Especialistas acreditam no ápice da produção já em 2020 e, a partir daí, se iniciaria seu declínio. Para cada barril descoberto, estima-se que dois são consumidos. Porém, se tivermos um mínimo de visão estratégica, veremos que a solução não parece tão distante e aponta para o hidrogênio - elemento limpo e mais abundante da natureza, passível de armazenamento nas células de combustível e com a água como único subproduto.
Mas o Brasil está preparado para esta verdadeira revolução? Potencial não falta para o País assumir a posição de potência mundial no setor. Grande parte de sua fonte energética provém de recursos renováveis - 87% da eletricidade deriva de hidrelétricas. Seu programa de álcool combustível deve crescer 82% até 2014, recebendo investimentos aproximados de US$ 10 bilhões, e já despertou a atenção da Índia. O uso do etanol como matéria-prima, aliás, pode beneficiar as regiões distantes dos grandes centros e onde o gás natural dificilmente poderia chegar. E em 2008, enfim, será implementado o modelo brasileiro dos ônibus movidos a hidrogênio pela Empresa Municipal de Transportes Urbanos (EMTU).
As notícias são animadoras, mas em outros países, empresas e governos também vislumbram o poder do hidrogênio. Tecnologias para sua adoção tendem a movimentar mundialmente perto de US$ 1,7 trilhão até 2020. A Europa já tem um programa desenvolvido, enquanto a indústria automobilística norte-americana investiu cerca de US$ 2 bilhões em protótipos. Neste caso, porém, cabe ressaltar que o governo dos Estados Unidos ainda oferece mais estímulos à extração de carvão e à obtenção de hidrogênio a partir do petróleo, na contramão do mercado que busca se livrar da dependência dos combustíveis fósseis e da eliminação de concentrações de dióxido de carbono. Uma oportunidade para o Brasil.
Além disso, os Estados Unidos gastam, atualmente, mais com a proteção à produção do pe tróleo do que com a importação. Mantida a tendência, 65% do petróleo restante estará no sempre instável Oriente Médio. O Brasil, em contrapartida, está na metade do caminho e pode fazer do hidrogênio o primeiro sistema energético democrático da história. A geração de energia poderia ser facilmente descentralizada por meio das células de combustível, tornando obsoleto o controle das grandes corporações.
Por meio das células de combustível, cada pessoa poderia gerar sua própria energia, vendendo o excedente para uma empresa, que por sua vez a distribuiria para indústrias, comércio e universidades, por redes controladas por softwares. Ilusão? Uma tecnologia ainda cara? Não por muito tempo. Como acontece com a indústria de softwares, os custos tendem a cair pela metade à medida que a tecnologia é assimilada pelo mercado. Outro aspecto que corrobora para a era do hidrogênio: parte das dívidas contraídas pelos países em desenvolvimento teve como origem a necessidade de bancar o custo petróleo.
O Brasil teria gastos iniciais com importação de geradores de hidrogênio e testes locais para viabilizar sua aplicação, mas o custo-benefício parece claro. Motores de combustível podem converter de 15 a 20% da gasolina em energia e a eletricidade convencional tem eficiência de apenas 33%. Já as células de combustível convertem de 40 a 65% da energia do hidrogênio em eletricidade. Nas aplicações em propulsão veicular, a produção do gás poderia também se dar por meio de reformadores embarcados, o que dispensa a implantação de toda a infra-estrutura dos subsistemas de produção, distribuição e armazenagem.
Temos infra-estrutura e condições naturais que nos possibilitam sair na frente do mercado internacional. Alcançamos uma relativa auto-suficiência petrolífera, produzimos cerca de 15 bilhões de litros de álcool e água temos em abundândia. Para isto, o Brasil deve permitir uma auto-regulação da iniciativa privada, realidade incondizente com o atual modelo institucional do setor elétrico - que, mesmo com limitações notórias de investimento, quer assumir uma responsabilidade de injetar recursos para a expansão da oferta. Podemos liderar, sem exageros, uma nova era comercial de energia, desde que sociedade, governo e indústria se unam em torno do hidrogênio - gás eterno, rico e não poluente. Conseguiremos?
Newton de Oliveira
Diretor da International Oxygen Manufacturer Association (IOMA) e presidente da Indústria Brasileira de Gases (IBG)
fonte: www.correaneto.com.br Newton de Oliveira |