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Ônibus a hidrogênio brasileiro será apresentado em Setembro.
6 de agosto de 2008

A Tuttotrasporti, de Caxias do Sul (RS), fabricante de chassis especiais para ônibus, acaba de montar o primeiro ônibus da América Latina de piso baixo com tração elétrica. A eletricidade será produzida através de duas células a combustível de hidrogênio usadas em veículos de passeio. O subproduto da reação química será a eliminação, pelo escapamento, de vapor da água ao invés de CO2 e poluentes. Ou seja: poluição zero. O veículo não usa transmissão e tem autonomia para 350 km.
A primeira unidade será entregue em setembro para a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) de São Paulo. Rodará inicialmente 300 km por dia. Para garantir abastecimento, a Petrobrás instalará um posto de produção e abastecimento de hidrogênio em São Bernardo do Campo. "O hidrogênio é a força que vai mover o mundo", diz o diretor da Tutto, Agenor Boff, afirmando que "esta é a primeira experiência do Brasil". O desafio agora é popularizar a sua utilização.

Ousadia gaúcha

Comparado a outros projetos em testes na Inglaterra, Austrália, Alemanha e China - existem hoje cerca de 80 ônibus rodando no mundo - a ousadia da empresa gaúcha quebra paradigmas, na medida em que desmistifica e, mais do que isso, simplifica todo processo de fabricação do chassi e montagem dos componentes do sistema de propulsão, fabricados em vários países do mundo, e gerenciados totalmente por um software criado 100% pela Tuttotrasporti.

"Este é um importante passo em nível mundial para a viabilização técnica e econômica do hidrogênio, como combustível alternativo", diz Boff, sem, no entanto revelar o valor do investimento. Ele diz, porém, que o hidrogênio é encontrado em toda a natureza: na água, gás natural, álcool, no biodiesel, carvão, lixo urbano, aterros sanitários, estações de esgoto e biomassas. "Ele vai possibilitar a independência de combustíveis fósseis", enfatiza.

Boff, um ex-funcionário da Tutto, é também o piloto de testes dos produtos que saem da sua fábrica, desde que assumiu o controle, 17 anos atrás. Não foi diferente com o ônibus a hidrogênio. Ele rodou por Caxias do Sul e cidades da região da serra e Porto Alegre. "Agora inicia a segunda fase, a de avaliação do desempenho de consumo e viabilidade econômica. São novas medições", diz o empresário.

O chassi Tutto piso baixo é encarroçado pela Marcopolo com carroceria urbana para 90 passageiros. O sistema utiliza oxigênio e hidrogênio num equipamento chamado de célula a combustível de hidrogênio (Fuel Cell). Na verdade, o veículo usa duas stacks de células (dois módulos de células a combustível), fornecidos pela alemã Ballard Power System. "Aqui está o cérebro", aponta Boff, salientando que o uso de células automotivas foi opção sua para poder reduzir os custos de montagem, pois são equipamentos já em produção.

O projeto demandou dois anos e meio. "Fiz pesquisas em diversos países do mundo aonde o hidrogênio vem sendo testado. Andei no Classe A feito pela Mercedes Benz, na Alemanha, onde estas células são empregadas", conta Boff. O desafio foi meio por acaso, em 2004, na EMTU, na apresentação do chassi VW com articulação e o sistema de tração híbrida - elétrico e GNV -produzidos e montada pela Tuttotrasporti.

"Foi sugerido pela EMTU que a Tutto fizesse o chassi, bem como executasse a agregação de todos os componentes do sistema de propulsão a hidrogênio e desenvolvesse o software de gerenciamento do veículo", destaca Boff, que já acumula experiência na fabricação de chassis para veículos elétricos: em 1996 ele fez 281 chassis para trolebus. "Eu assumi a responsabilidade. Não tenho mede de desafios", provando que o hidrogênio pode ser montado em qualquer lugar, apontando para um dos galpões da fábrica que não tem o mesmo brilho de montadoras americanas e européias.

Boff está convencido de que o Brasil se apresenta ao mundo como um grande fornecedor de hidrogênio, com aplicações no transporte rodoviário, naval e ferroviário. "Foi uma realização pessoal de altíssimo risco, mas tenho certeza que esta primeira unidade servirá de estímulo", prevê. E finalmente conclui: "Num futuro próximo as células de hidrogênio estacionárias produzirão energia elétrica para as indústrias, residências, hospitais e outras aplicações".

Como funciona

A produção do hidrogênio para o projeto do ônibus é realizado por meio de eletrolisadores que tem a função de separar as moléculas do hidrogênio e oxigênio, constituintes da água. O hidrogênio será armazenado para abastecer o ônibus e o oxigênio será liberado para a atmosfera.

A reação química entre os dois componentes produz eletricidade que alimenta os motores elétricos acoplados ao eixo motriz de tração, sem ruídos e sem combustão.

O modelo atual utiliza nove botijões presos na parte externa do teto, 4 kg cada um, 210 litros e autonomia para 350 km.
Em comparação ao veículo diesel a eficiência energética do diesel é de 30%. Já no ônibus a hidrogênio, a eficiência é de 50% com emissão zero de poluentes, e encontrado em fontes renováveis na natureza.
As baterias são usadas como pulmão energético para situações que requerem maior corrente elétrica. O conjunto de baterias também é necessário para o aproveitamento da regeneração de energia que é produzida pelos mesmos motores elétricos de tração, quando estes não estiverem sendo utilizados para deslocamento. Em frenagens ou em descidas, os mesmos motores de tração passam a funcionar como geradores de energia elétrica.

fonte: Gazeta Mercantil

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